2011-01-03

25/XXV – ALMAS AVESSAS

  
Anita Mafalti

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           Chanson de Montmartre, óleo sobre tela.


 
Reclinando-se na poltrona, Suzana observa em tom divertido:
- Háháhá... Vou morrer de tanto rir quando você encontrar uma mulher que ponha fim nessa sua vida de boemia.
- Putz grila!!!
- Depois não vai dizer que não lhe avisei. No afã de querer pegar todas que aparecem na sua frente, um dia, vai se estrepar, viu?
Mathieu franze a testa.
- Isola.
- Pelo que se vê por aí, aqueles que fogem do casamento, feito o diabo da cruz, se amarram mais cedo, traídos pelo próprio destino. Um descuidozinho bumba..., é um laço só!
- Nem pense.
- Math, existe mulher que, quando encarna, é como o capeta. Planeja detalhes, pensa lá na frente e dá a volta ao mundo para alcançar o que deseja.
- Eu sei.
- Um carinha como você que se assanha com todas, se bobear, morde a isca com qualquer uma – avisa Suzana com um risinho de escárnio.
- Morde?
- Depois, diga que não avisei.
Pausa. Mathieu:
- Não caio nessa. Sou gato escaldado, e vacinado.
- Sei não. Pessoas farristas, como você, passam a vida divertindo e não se dão conta de que a vida pede mais. Bem mais, viu?
- Bem! Bem! Não é melhor virar o disco?
A mulher insiste:
- Viver só de test-drive com essas fulaninhas por aí não é garantia de futuro, cara. Não acha que passa da hora de deixar de rodar às tontas pela noite, tomar juízo e procurar uma moça séria para se casar?
Mathieu responde com um sorriso maroto no rosto:
- Ainda é muito cedo, querida. Solteiro, vou me divertindo com as garotas erradas até o dia em que encontrar a certa para preencher esse vazio.
- Alpinista! Só ‘pegação’, não é mesmo?
- Tenho espírito anarquista, não nego.
- Háháhá!
- Nesse estágio ganho experiência, mantenho a forma física e açodo os estímulos cerebrais. Falo sério.
- Quer me convencer de que a rotatividade de parceiras permite ao homem conhecer novas técnicas para aperfeiçoar o seu desempenho?
- É um aprendizado.
- Cuidado, hein? A ciência aponta que gente que se torna compulsiva por sexo, normalmente, tem grande dificuldade em manter-se em uma relação estável.
- Papo furado.
- Não sei.
- O homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita, ensina Guimarães Rosa.
- E alma, como é que fica?
- Como não creio no mito cristão da vida eterna, só me resta viver da forma que me satisfaça, desfrutando cada momento presente. Ontem, já foi. O amanhã, ainda não chegou. Portanto, vamos consagrar a existência, aqui e agora, como a coisa maior.
Pausa. Depois de tomar um pouco de cerveja, ela:
- Mocinho, pelo andar da carruagem tudo indica que vai postergar, ao máximo, o momento de encarar um relacionamento para valer. Quer mesmo é continuar curtindo a vida adoidado!
- Iche!
- Tudo indica. Tudo.
- Háháhá...
- Cuidado, hein! O tempo passa, viu?
O rapaz, após longa sorvida no cigarro:
- Engraçado que sempre perguntei aos deuses quando vou encontrar minha outra metade. Sem me levar muito a sério, eles ainda não me responderam. Nesse ínterim, cada hora fico com uma e estou feliz.
- Olha, só!
- Não se preocupe, eu não engano ninguém. No primeiro encontro procuro deixar claro minha opção pelo amor sem compromisso. Assim, ninguém sofre à toa.
Suzana com um sorriso contido.
- Pelo que estou vendo, você não leva nada a sério mesmo!
- Acha?
- Além da conta.
- Ora, Suzana, casar não é apenas querer. Depende de muitas coisas.
- Ã-Hã.
- Para quem é novo na carreira torna-se quase impossível fazer um bom jornalismo e ter uma vida familiar normal. O salário é pouco, mixaria, apesar de muita ‘ralação’.
- Ô, Math!
- No Brasil, poucos jornalistas vivem somente do ofício de escrever. Isso leva a grande maioria a fazer um ‘bico’ aqui, outro ali para complementar a renda, principalmente, numa Agência de Propaganda com a triste missão de criar imagens para enaltecer um determinado produto comercial para induzir o consumidor a comprá-lo.
- As agências pagam bem, não?
- Nada que dê estabilidade. Ainda sou um cara ‘duro’, Suzana.
- Tudo bem. Mas, isso não o impede de arrumar uma boa mulher para se casar e viver um grande amor.
- Acha que não?
- Hoje em dia quase toda moça trabalha fora.
Mathieu toma um gole de cerveja. Depois de outra sugada no cigarro, volta os olhos para ela e brinca:
- Tudo bem, loira, a hora que você quiser.
- Bobo!
- Ideia bem surreal, mas excitante. Não?
- Olha aqui: falo sério.
- Eu também.
- Arre!
- Sabia que na Itália o Fascismo, desejoso de braços para ampliar e fortalecer a nação instituiu um imposto sobre o celibato.
A mulher surpreende-se:
- Nunca ouvi falar.
- Mussolini comparava a humanidade a um pássaro - uma asa representava o homem, a outra a mulher. Para o ditador, mais do que tudo, o casamento era uma garantia de reprodução de braços para defender a Itália.
- Tá, tá, tá... Não desvia o assunto.
- Caracas!
- Seu xará, em Idade da Razão, de acordo com Sartre, amou a liberdade que tinha até o momento de decidir pela escolha de uma vida a dois.
- Ah, sim. Sim. Depois veio todos aqueles dramas internos, a mente baralhada e indecisa. Lembra?
- É.
- Penso eu, pensa Sartre.  Homens de letras, normalmente, têm por destino o solteirismo, nutrido por um coração independente. Amar toma mais tempo do que podemos dispor.
- Ah, é?
- Para criar, qualquer artista precisa de sossego e certo isolamento. Quando casa, costuma arrumar problemas para si e para a família.
- Háháhá...
Depois de esvaziar o copo de cerveja, Mathieu:
- Brincadeira, viu?
- Hein?
- Claro que vou casar um dia e construir uma história de vida familiar. Por isso que, às vezes, não dispenso um romance com princípio, meio e fim, mesmo sabendo que, depois, se não der certo, costuma dar uma mão de obra hidrófoba para desmanchar.
- Conheço a história.
- Fique tranquila. Tenho talento para desfazer a fantasia sem deixar traumas. Pode crer.
- Rei da embromação!?...
- Menos.
- É pegar no pé que você dá um jeito de escapulir, não é assim?
- Ando com curativos coloridos no bolso para consertar um eventual coração partido, sem deixar sequela – brinca o rapaz, rindo.
- Ó, meu Deus, olha como ele fala!
- Onde não puderes amar não te demores... Não é assim que Frida Kahlo aconselha os paqueradores espalhados pelo mundo?
Suzana lança um olhar irônico ao amigo. E não responde.
- Querida, olha aqui: como todo cidadão, quero ser feliz ao lado de um grande amor, curtir afeto pela companheira e muito desejo pela fêmea.
 - Difícil de acreditar que você está dizendo isso.
- A hora do sim é um descuido do não. A benção, Poetinha, saravá!
- Hummm!
- De braços dados com alguém a vida adquire outro tom, outro sabor, não é assim?
- Ã-Hã!
- Desejo casar de papel passado com toda pompa. No Cartório, na Igreja e tudo mais que a gente tem direito. Trocar votos de fidelidades, jogar pétalas de rosas ou grãos de arroz para os convidados... Celebração da alegria, uma festa!
            - Casamento pode ser uma coisa boa, Math. Mas, para dar certo, terá que brecar seus instintos de garanhão e encarar a coisa com seriedade, parar de cafajestagem, entende?
- Evidente. Essa ideia de colocar um novo habitante no planeta, educado por mim, dando opiniões e dirigindo automóveis é mesmo muito legal. Coisa que, com certeza, vai me encher de orgulho.
Suzana reabre o sorriso.
- Alguma pretendente em vista?
- Preciso dizer?
- Não, claro que não. Perguntei só por perguntar. Desculpe-me.
- Sem pressa... Sem pressa. Até porque ainda não sou hábil o bastante para escolher uma pessoa que seja especial para, juntos, criarmos uma história de amor que dê sentido aos nossos anseios. Portanto, ainda não estou com as malas prontas para casar.
- Maravilha.
- Penso numa jovem adulta que cumpra o protótipo de uma esmerada dona de casa e boa mãe. Excelente parceira intelectual, obviamente. Acredito que um dia minha princesinha, pura como Iracema, acaba vindo para gente casar e formar uma família bacana. Não é mesmo?
Suzana se mexe na poltrona, rindo alto:
- Está vendo! Está vendo, cara!
- Vendo o quê?
- Te peguei!
- Hein?
- Machista como qualquer outro homem que condena!
Mathieu arregala os olhos. Ela:
- Na hora de casar você também deseja correr atrás das mais santinhas. Sei como é. Quer uma esposa que chega em casa, mesmo cansada do trabalho, com boa disposição para enfrentar as tarefas domésticas. E ainda se desdobrar em preocupações com o maridão. Quem diria?
- Ora, Suzana, falei isso de gozação, não percebeu?
A mulher leva o dedo indicador da mão direita ao olho esquerdo, dizendo:
- Esse é irmão desse. Ah, cara, corta essa.
- Juro.
- Desculpa esfarrapada! Ora, Math, não minta para você mesmo.
- Já disse: falei de gozação.
- Vem não, assombração! No amor idealizamos a outra pessoa e nela projetamos a imagem que possuímos internamente. Isso é vero – ilustra Suzana em tom de deboche.
O rapaz tenta consertar:
- Há homens e há homens... Eu não tenho nada preconcebido ou predestinado quanto a um amor verdadeiro.
- Affe!
- Posso dizer que serei um esposo para o que der e vier. Olhos nos olhos, companheiro para viver um amor de verdade, juntos para sempre. No maior grude. E mais: prontinho para colaborar em tudo, principalmente, dividir as obrigações do lar.
Pausa. Suzana:
- Ai, homens, ô raça! Homens são todos iguais: uns folgados.
- Putz!
- Cuidado, hein! A vida é cheia de surpresas. Te cuida, rapaz, para não se ferrar amanhã.
- Por isso mesmo, nessa hora, devo ter a cartilha de Shakespeare sempre ao alcance de minhas emoções. Nela está escrito, com letras garrafais, que a sabedoria e a ignorância se transmitem como doenças. Daí a necessidade de saber escolher as companhias para encontrar uma mulher que vale a pena dividir a vida, levar a sério. A partir daí a vida encontra um meio para que o amor exista.
- Vixe!
Mathieu ri, sorrateiramente.
- Preocupe não. Jogo é jogo, treino é treino. O dia em que topar minha alma gêmea, serei leal e fiel a ela, ciente de que viver apaixonadamente faz toda a diferença. E que nosso amor seja infinito enquanto dure. Sonhos de adolescente que ainda fazem parte de meu imaginário romântico.
- É bom lembrar que o caminho do inferno está pavimentado de boas intenções, viu?
- Falo sério.
- Quero ver.
- Brincadeira à parte, mas um dia vou pensar sério nisso. Prometo. Nada de uma parceira submissa. Pelo contrário. Quero uma mulher com projeto de vida parecido com o meu para tocarmos uma relação amorosa também assinalada por boa barganha intelectual. Unidos pela literatura, capisce?
- Entendo.
- Nunca me apaixonei de verdade. Acho que tudo tem seu tempo, ‘né?
- Saúde! – brinca Suzana, oferecendo um brinde.
O rapaz, ainda sorrindo, estende o braço fazendo tilintar o seu copo, discretamente, no copo da amiga.
 
 

* FBN© - 2012 – Almas Avessas..., NUMA NOITE EM  68 - Categoria: Romance de Geração - Autor: Welington Almeida Pinto. Iustr.: Chanson de Montmartre, óleo de Anita Mafalti. Link: http://numanoiteem68.blogspot.com.br/2011/01/26xxvi-almas-avessas.html?zx=6bc4a451967f521e
 
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