2011-01-03

02/II - ESQUERDA, VOLVER!...


*
Carlos Marighella
 
 
Considerado um dos principais organizadores da resistência contra o regime militar a partir de 1964.
 
 
 
Capitã Nancy Wake
A roupa é de soldado,
mas a sensibilidade é feminina.


 Heroína mais condecorada, pelos aliados,
por sua atuação nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial, tornando-se a mulher mais procurada pela Gestapo. 1912/2011
 
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 Oficial Lyudmila Pavlichenko

 Revolucionária  soviética.
Mulher Sniper mais bem sucedida -1916/1974



 
II

ESQUERDA, VOLVER!



Suzana permanece imóvel. Fita por um momento o seu retrato dependurado na parede, recompõe-se na poltrona e procura saber:

- E aí, rapaz, o que há de novo?

- Tudo velho. Apesar de uma notícia desagradável que recebi lá no pensionato.

- O quê?

- Corre rumor de que o Brito foi preso.

- Meu Deus, parente seu?

- Não. Não. Mora lá com a gente.

- Ainda bem.

- Ele participa do MR8.

Suzana pensa um pouco para ver se tinha entendido. Logo pergunta:

- Que banda é essa?

- Não é rock não. Grupo de esquerda.

- My God! Um lapso... Onde é que estou com a cabeça?

- Bobagem!

- Ih, gente, confundi as bolas, que bobeira! Socorro!!!

- Movimento Revolucionário Oito de Outubro.

- Ouvi falar. Por que essa data agregada ao nome?

- Dia em que a CIA capturou e matou, na Bolívia, o guerrilheiro argentino Che Guevara no dia 8 de outubro de 1967. Antes, chamava-se DI-RJ. Rebatizada em homenagem ao revolucionário.

- Olha!

- Na verdade, o movimento de ideologia socialista foi criado por universitários em 1964, com o nome de Dissidência do Rio de Janeiro. Como era uma célula trotskista, pregava a luta armada contra a ditadura militar para implantar um Estado Socialista no Brasil.

- Vixe! - expressa a mulher, espantada.

- Agora, com a união do ex-deputado Federal Carlos Marighella ao MR8, surgiu o grupo ALN - Ação Liberadora Nacional - organização subversiva que assumiu a responsabilidade por vários assaltos a bancos no Brasil.

- Meu Deus!

- Não à toa que é o terrorista mais procurado do país. Ele é considerado o inimigo número um do Brasil. Conhece sua história de luta?

- Pouco. Mas sei que é uma voz contra a Ditadura.

- Ícone irredutível da resistência aos militares no poder. Ganha projeção como estridente voz contrariando o regime político brasileiro, que endurece cada dia mais. De peito aberto, ele grita quando a ordem é calar e resiste quando a força manda ceder. Esse é o tom do seu discurso. Por isso mesmo Marighella é celebrado na Europa como o principal comandante da guerrilha na América do Sul.

- Puxa vida!

- Influenciado pelas ideias dos 3 Ms: Mao, Marx e Marcuse, lançou o mini manual do Guerrilheiro Urbano que propaga os mandamentos dos militantes. Ao sabor de Marselhesa, o livreto é também conhecido pelo título: Às armas, Companheiro.

- Já leu?

- Dei uma folheada. O que mais me chamou atenção foi o quesito que manda o militante ser andarilho, resistir ao cansaço, à fome, à chuva, ao calor. Saber esconder-se e saber vigiar. Ter sangue frio, anarquista, romper fronteiras. Tudo como Trotsky manda, ao dizer que a única virtude moral que temos de ter é a luta pelo Comunismo.

- Oh, céus!

- Com esse livreto Marighella tornou-se espécie de superego de uma geração de teóricos marxistas, principalmente, universitários que não pensavam duas vezes, mesmo sabendo que estavam dando a cara para bater, para se apresentarem como voluntários para vencer ou morrer pela causa comunista.

Suzana, meio angustiada:

- Falta de juízo, não é?

- Total. O risco, querida, está na essência desse esporte! Muitos deles perdem a vida por nada, enfrentando a selvajaria do Estado que armam para eles verdadeiras arapucas da morte.

- Fico triste.

- Debruçados sobre uma panela fervendo, ainda assim, um batalhão de jovens que vive pelas ideias de liberdade e justiça social, não desiste de brigar pelo fim da ditadura no Brasil. Convicção inabalável! Essa é a expressão que se lê no rosto de cada um deles, obcecados pela luta armada, num país que está sendo massacrado pela Ditadura Militar.

- Deus me livre e guarde!

- Para esses incansáveis subversivos e envolvidos ativamente com a resistência, o idealismo e a ilusão da glória podem durar pouco.  Quando não são abatidos por inimigos em ação, mofam nas prisões com todo tipo de crueldades por longo tempo, passando do sonho ao pesadelo.

- Difícil até de acreditar!

- Mesmo assim, tem a rapaziada da esquerda festiva, que imagina casar com a filha de um herói da revolução cubana, pensando em viver na mítica ilha para o resto da vida, mesmo que seja apenas um fantasma por trás das cortinas – afirma Mathieu.

- Háháhá!

- Suzana, nada é mais romântico para os jovens socialistas que cultuam esse sonho! São eles que enchem as paredes de seus quartos com pôsteres de Guevara, queimam neurônios pensando como é que vão crescer sem ter com quem se revoltar, ou amadurecer sem ter como se rebelar. É isso. Tendo Guevara como uma espécie de best of, querem ser combatentes como ele, que já arrastou uma multidão de moços para o inferno das guerrilhas, com a mesma leveza de alma de quem sai para uma simples caminhada pelas montanhas.

- Vixe!

- Isso mesmo. É assim que as novas gerações vão sendo iludidas para lutar pela implantação do comunismo, principalmente, na América Latina. É dessa maneira que a farsa ainda resiste.

- Eu sei.

- São pessoas que engordam os postes da cidade com panfletos de mensagens cifradas de todas as formas, principalmente, para convocar militantes às reuniões clandestinas, sem levantar suspeitas. Outra maneira de panfletar, é umedecer e colar milhares de folhetos no alto dos edifícios. Na medida que vão secando, um a um, inicia seu voo pela cidade levando mensagens dos revolucionários, longe de denunciar a origem do procedimento. Para essa gente, o regime comunista seduz como religião.

Pausa. A mulher desolada:

- Ingênuos!

- Os heróis barbados, empunhando metralhadoras, são considerados santos para adoração com sua farsa moral esquerdista. Repare na imagem de Che: domina a linguagem guerrilheira típica do sistema latino-americano. Percebe?

- Sim.

- Por outro lado, Suzana, terrorismo é também vaidade. Hoje em dia falar que é da esquerda provoca admiração, principalmente, dentro das universidades. Deixar a barba crescer, ser preso valoriza o currículo, sabia disso? Significa que o cara é da ‘pesada’.

- Poxa!

Pausa. Mathieu, depois de uma tragada no cigarro, confessa:

- Esse argentino nunca me convenceu com esse discurso de igualdade social! Fidel Castro, muito menos.

- Nem a mim – fortalece a mulher.

- Em dezembro de 1964, como participante da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, Che Guevara ocupou a tribuna e confessou sem titubear: ... Nosotros tenemos que decir aquí lo que es una verdad conocida: fusilamientos, sí, hemos fusilado; fusilamos y seguiremos fusilando mientras sea necesario.

- Porco fedorento! - expressa a mulher, assombrada.

- Ainda hoje, seu legado está em plena operação, como forma de reestruturar o tecido social. Continua no país a máquina de assassinatos políticos na prisão de La Cabana com execuções sumárias de vítimas que, exauridas, já chegam ao paredão em estado crítico. Delas retiram boa parte do sangue para transfusões.

- Quadro horrível!

Mathieu balança a cabeça, admitindo:

- Mesmo assim, Fidel Castro prega o ideal comunista como o máximo. Quer paradoxo maior?

- Não.

- Para Fidel é um paraíso, sim. O cara mora numa pequena ilha, cercada de fausto. Dono de iate e avião particulares, come do bom e do melhor e se dá ao luxo de mandar fazer, sob medida, suas botas de couro na Itália. Ostentação que contrasta com a miséria em que vive a população de Cuba. Nada diferente da vida luxuosa, em que revela despudorável excentricidade, que seria aberrante até mesmo para um bilionário capitalista.

- Não sabia.

- Segredo de Estado. Quem falar, morre.

- Pior que é assim mesmo.

- Toda sociedade totalitária é movida pela convicção de que as pessoas não são iguais, não podem nem devem ser tratadas como iguais. Portanto, o ser humano visto como inferior é logo eliminado.

- Estou chocada!

- Arre! Se algum dia eu tive algum namoro com as teorias marxistas durou pouco, porque logo descobri que essa filosofia de repartir pobreza é tapeação. Nunca vi beleza no infortúnio!

- Nem eu.

Depois de tomar um demorado gole de cerveja, Mathieu franze o cenho, dizendo:

- Voltando ao Brasil, tenho muita pena dos que caem na desgraça de serem presos pela nossa polícia repressora. Nos porões do DEOPS, apanham feito cavalo.

- Imagino.

- Numa sessão de suplícios, diante de torturadores extremamente covardes, absolutos e impiedosos, as vítimas são dependuradas em pau de arara, onde confessam o que fizeram e o que não fizeram.

- Santo Deus!

- O negócio dos milicos é ver o desgraçado reduzido a lixo – compara Mathieu.  - Um inferno que o tempo jamais apagará da memória da vítima, nem da nação. 

- Sofrem para caramba, eu sei.

- Qualquer cidadão, submetido a uma seção de martírio, é diminuído a tal ponto que, quando posto na rua por ser inocente, por bom tempo mal pode se expressar direito de tão judiado. Arrancam-lhe as unhas, os dentes. Ferem-lhe a honra, a dignidade. Tudo como a gente nunca viu.

- Triste.

- Existem relatos de que reprimem com choques elétricos, e outras sevícias, até filhos lactentes, encarcerados com as mães.

- Meu Deus, difícil de acreditar!

Pausa. Mathieu:

- O pior que, em termos de mortificação, o inimaginável não se esgota nos porões de tortura, que emprega sofisticadas técnicas de martírio contra a vida humana ao som dos acordes do Hino Nacional. E mais, muitas vezes, depois de levar tapas, socos e choques, a vítima do terror é levada a um ‘passeiozinho’ para nunca mais voltar para casa. Some de uma hora para a outra.

- Desaparecimento forçado?

- Nesse trajeto, o infeliz é silenciado para sempre. Cada dia, cresce o número de vidas interrompidas, traídas pela própria ideologia política.

- Miseráveis!

- Pior ainda quando prendem uma militante. A barbaridade é maior. Além da interrogatória, tortura no pau-de-arara, choques elétricos com a ‘pimentinha’, afogamentos, palmatórias e coroa de cristo, a infeliz deixa as seções de martírio com inúmeras mordidas pelo corpo.

- Como assim, Math?

- Resultado impiedoso das sevícias que uma mulher atura nas mãos desses agentes, imersos em tudo, o que do poder procede. Um mar de excessos! Elas sofrem estupros diários, satisfazendo o insaciável e doentio apetite sexual de alguns torturadores, que não escondem o que a repressão do regime totalitário é capaz de fazer contra o cidadão brasileiro.

- Meu Deus, precisa de tanta selvageria? Quanta dor, quanto estrago pode provocar um bandido na vida de uma mulher? Como será que essas imagens vão marcar sua vida na sociedade.

- A tortura sempre existiu. Houve em arenas romanas, nas masmorras da idade Média, nos castelos e pelourinhos. Foi patrocinada pelos senhores de escravos, imperadores, reis e papas, ditadores de direita e de esquerda. Consecutivamente em pauta, quando um estado precisava subjugar seus inimigos.

- Não me conformo.

- Difícil até de imaginar. Mas, posso dizer que essa história é antiga. Barbara do Crato, avó de José de Alencar, republicana declarada, foi a primeira presa política na biografia do Brasil. Como o governo da época também era leniente com a tortura a inimigos políticos, ela também sofreu seu martírio físico e, principalmente, psicológico na cadeia.

- Não sabia.

O rapaz, depois de acender um cigarro, conta:

- De acordo com a imprensa internacional, o Brasil é considerado o maior caldeirão de tortura da América do Sul do século XX. Acredita?

- Inconcebível.

- A perseguição pelo Exército, principalmente, aos intelectuais é ferrenha. Certa vez, um grupo de escritores e jornalistas, portando faixas que pediam liberdade e o fim da tortura no Brasil, vaiou o presidente Castelo Branco na saída do Hotel Glória, no Rio de Janeiro. Não deu outra, todos foram presos.

- Quando foi isso?

- Em novembro de 1965. Entre eles, Carlos Heitor Cony e Flávio Rangel.

- Puxa vida!

- Depois desse fato, o jornalista Paulo Francis, indignado com a situação, liderou um movimento de protesto na Europa contra as prisões arbitrárias no Brasil. Lembra?

- Lembro.

- A resposta foi rápida e preciosa. Jean-Luc Godard, que estava rodando Masculino e Feminino, fez uma denúncia no contexto do filme. Pasolini, Renais, Ives Montand e dezenas de outras figuras do cenário da cultura mundial também se manifestaram, apontando o retrato agudo do totalitarismo no Brasil e, principalmente, o arroubo de grandeza de nossos governantes.

Pausa. Suzana:

- Você conhece outros na militância?

- Não. Não. Maioria dos meus amigos se espalha mais pela ‘direita’ do que por essa ‘esquerda’, mergulhada na brisa marxista. Na verdade, não tenho simpatia por líderes socialistas que consideram os outros como burgueses, porcos do capitalismo selvagem. Vejo que muitas questões são justificadas por mentiras ideológicas, uma sem-vergonhice! Creio que, uma vez no poder, esses caras vão se comportar como os seus antecessores capitalistas. Olho para essa gente e tenho vontade de meter o dedo na garganta de tanto asco.

- Entendo.

Pausa. Mathieu:

- Longe de convicções radicais, me sinto meio hippie que adota o slogan mais abençoado do mundo: Paz &Amor.

- Ã-Hã.

- Ser reacionário nunca foi meu esporte. Se não há liberdade, há meu escracho, pode crer – conclui o rapaz, rindo.

- Nem das passeatas você participa?

- Observo de longe. Ver a consciência política se exacerbar na alma do brasileiro me dá muita esperança. Mas...

- Jurava que tomava parte das manifestações de rua. Até mesmo para ganhar a simpatia de alguma ovelhinha stalinista em protesto contra a Ditadura Militar.

Risos. Mathieu:

- Nem por isso. Mas sei que o protesto político é um dever intelectual de todo cidadão. Platão ensinou que o preço a pagar pela sua não participação na política é o ser governado por quem é inferior. Portanto, é perigoso silenciar.

- Isso mesmo.

- Diante dessa reflexão, às vezes, eu me pergunto: até que ponto o não envolvimento em atos públicos dessa natureza pode ser traduzido numa covardia, enquanto assistimos milhares de pessoas enfrentando a polícia nas ruas?

- Ora, Math, você oferece participação de outra forma: escrevendo.

- Claro. Eu até gosto de discutir a política, mas eu não curto paixão irracional por ela. Radical, nunca. Racional, sempre.

- Melhor assim.

- Posso dizer que tenho repulsa por qualquer tipo de partido, tanto de direito como de esquerda. Sou libertário. Mas isso não quer dizer que não devemos prestar mais atenção no dia a dia dos políticos do Brasil. Não ficar indiferente, claro.

- Entendo.

- Creio em Tchekhov. Você em Jesus Cristo. Outros em intelectuais socialistas, submergidos em seus feudos teóricos. Da minha parte, do meu jeito torço pela liberdade ampla e irrestrita de expressão em meu país.

- Mostra que é um jovem consciente, cauteloso e sensato. Faz muito bem - balanceia os cabelos Suzana. 

- Entusiasta da democracia que sou, eu sonho com um regime moldado nos princípios de Abraham Lincoln, que dizia que a Democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo. Isso é: regime baseado em regras que asseguram méritos e virtudes que valem para todos.

- Rezo por isso também. Defendo que o exercício da democracia precisa começar dentro de casa, da escola, no uso dos logradouros públicos, dentro dos clubes recreativos que se frequenta.

- Claro, claro. Em todo lugar cabem lições de cidadania.

Pausa. Suzana, com um olhar preocupado:

- Math, até quando vamos continuar suportando tanto abuso e o desrespeito aos nossos direitos fundamentais?

O jornalista leva a mão ao peito e enfatiza:

- Um dia, querida... Um dia reabilitaremos o democratismo, totalmente, abandonado por aqui. Talvez não se consiga já, mas sempre há aquela última esperança. Um dia...

- Será?

- Assim como a vida e a arte, a política também é feita de ciclos, de períodos. Com os ditadores de hoje não seria diferente.

- Tomara.

E com visível exaltação interior, Mathieu:

- Mesmo em uma nação bárbara como a nossa, com a inteligência vivendo longe do poder, vai chegar o dia em que esses milicos cairão fora, dando lugar a um governo ancorado na democracia. Nada é para sempre! Vai chegar o dia de virar essa partida, de botar esses torturadores na cadeia e acabar com essa alienação. Vai chegar o dia de redigir uma Nova Constituição com direitos plenos para todos. Ah, vai! Tempus edax rerum.

- Você está sendo realista ou otimista?

- Um pouco dos dois. Mesmo sabendo que a queda de braços entre governo e oposição ainda vai demorar, posso dizer que nenhuma regra, nenhuma decisão, nenhum sentimento dura eternamente. 

- Ai, nem acredito! Confio no Senhor que uma luz divina há de pôr fim nesse conflito entre irmãos o quanto antes, restaurando a paz. Somos ramos e folhas de uma mesma árvore, não pode ser diferente.

Depois de uma pausa, o rapaz:

- Querida, John Steinbeck inspirou em um antigo poema escocês para escrever Ratos e Homens, colocando de maneira incisiva que, por mais cuidadosos que sejam os planos desse mundo, feitos por ratos ou por homens, são coisas frágeis: podem ser desfeitos pelo rodo do acaso, que é indiferente aos projetos mais humildes quanto aos mais ambiciosos.

- Sim.

- Esse rodo vai passar por aqui, ainda que tardia, e acabar com essa lambança que virou a política brasileira. O que a gente vê é que nossas casas do poder legislativo abrigam, cada vez mais, pessoas que apenas querem saber de si, dos seus interesses políticos e de suas contas bancárias.

- Pior impossível.

- E Ditadura no Brasil, outra vez, nunca mais. Nunca. Você entendeu?

A mulher gira o dedo na cabeça:

- De volta ao começo, fale mais do Brito.

- Ninguém sabe onde ele se encontra. Todos nós, lá no pensionato, tememos por sua vida.

- Por quê?

- Pelo que se sabe, ele participou do assassinato do capitão do exército americano Charles Rodney Chandler, paramilitar morto pelo grupo de Marighella.

- Chandler! Chandler... Aquele tal..., o agente da CIA?

- Em carne e osso.

- Valha-me Cristo! – lastima Suzana com as mãos no rosto.

- Dizem por aí que o cara era instrutor de tortura dos nossos milicos. Veio ao Brasil, especialmente, para ensinar aos nossos militares o uso de técnicas eficientes de interrogatório, elaboradas pelo movimento Brother Sam. Mais brutais, claro.

- Verdade?

- Quem é que sabe? Como há rumores de que o golpe de 1964 teve forte apoio dos Estados Unidos nada é impossível. Não podemos esquecer que esse foi o primeiro país do mundo a reconhecer o novo governo brasileiro, engalanado por militares com sorrisos agradecidos pela esmola estrangeira.

- Não sabia, juro.

- Tudo a ver com a versão da operação Thomas Mann.

- Hein?

- Especula-se a participação do Governo Lyndon Johnson, entre aspas, na revolução de 31 de março de 1964. Parceria em surdina com a ‘direita’ e os milicos, que juntos encarnaram os cavalheiros de nosso apocalipse.

- Absolutos!

- Dizem que essa intervenção começou a ser cogitada após um encontro do embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon com o Presidente John Kennedy, que viam o Governo de Jango Goulart como ameaça à democracia brasileira.

- Será mesmo?

- Essa conversa, pelos anais da Casa Branca, ocorreu dia 20 de julho de 1962.

Pausa. Suzana:

- Bem informado, hein, rapaz?

- Notícias assim, não sei direito como, são diariamente vazadas do serviço de inteligência do FBI. Nada oficial, claro. Mas, todo jornalista atento aos fatos no Brasil sabe que os Estados Unidos agiram de forma ativa para derrubar João Goulart da Presidência, cogitando até mesmo invadir nosso país caso o golpe fracassasse. Como Jango não ofereceu resistência, os norte-americanos recolheram o imenso porta-aviões ancorado na costa brasileira, pronto para intervir, caso a tomada enfrentasse resistência.

- Estou surpresa, Math!

- Ã-Hã! – aquiesce o rapaz meneando a cabeça, repetidamente.

Pausa. Suzana:

- E agora, o que vai ser do Brito?

- Difícil dizer. Tudo leva a crer que, depois de submetido aos escabrosos métodos de tortura, é provável que ele será mais uma vítima do sumiço misterioso nesse oceano de abusos nos porões da Ditadura.

- Coisa mais deprimente, Math! – protesta Suzana com a voz enrouquecida.

- O pouco que a gente sabe é que o Brito foi capturado por milicos da unidade do Comando de Caça aos Comunistas, o CCC, conhecido como o mais carniceiro. Sua função básica é manter vigilância absoluta do cotidiano de todos os cidadãos brasileiros.

- Math, não é a mesmo pelotão que invadiu o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, durante a apresentação de Roda Viva, de Chico Buarque, e agrediu seus integrantes?

- Sim. Peça dirigida por José Celso Martinez.

- Em julho, não foi?

- Justamente. Agentes tão arbitrários que, para piorar o serviço sujo, obrigaram as atrizes do elenco a desfilar nuas num corredor polonês, formado pelos meganhas.

A mulher muda de posição na poltrona. Com o olhar pálido de cólera contida, expõe sua revolta:

- Que nojo, embrulha o estômago!

- Não é para menos.

- Isso, sim, é que é teatro do absurdo. Uma barbárie!

- Concordo.

- É um artifício do Exército para tirar de cena os inimigos políticos, principalmente, as trupes de ‘artivistas’ com suas atuações de protesto e embate no palco.

- Execrável!

- Não viu a ‘cana’ em massa de estudantes que participavam do XXX Congresso da UNE naquele sitio em Ibiúna?

- Fiquei pasma.

- Soldados da Força Pública não quiseram nem saber, enquadraram como subversivos cerca de mil participantes da mobilização estudantil.

- Ai, nem sei o que dizer.

- Ditadura é ditadura, querida. Ditadores, de todos os matizes ideológicos - tanto de esquerda como de direita - são autocratas, absolutistas e, sobretudo, fazem prevalecer a mordaça sobre a liberdade de expressão.

- Tem razão.

- Na verdade, não há ditadura em que o povo não seja subjugado pelo abuso de seus governantes. Toda ditadura é regida pela sujeira dos maus costumes e, principalmente, pela força dos canhões que esmagam pessoas e ideias que não se alinham ao sistema.

- Ã-Hã.

- Norberto Bobbio acertou na mosca quando disse que se há uma coisa que une esquerda e direita é o ódio à democracia. Penso assim também.

- Sim, senhor.

O rapaz em tom crítico:

- Boa noite para nós todos que vivemos nesse país chamado Brasil. Antes do golpe militar, folcloricamente, era chamado de ‘república dos papagaios’. Depois, virou república do ‘pau-de-arara’.

- Ah, essa é boa!

Sorrindo, o rapaz pega uma das mãos de Suzana e prende-a com firmeza entre as suas. Olha-a enternecido. E admite:

- Você tem uma cabeça-boa, menina.

- Você também, menino.

 



 
* FBN© - 2012 – Esquerda, Volver!.. NUMA NOITE EM 68 - Categoria: Romance de Geração - Autor: Welington Almeida Pinto. Iustr.: revolucionárias Lyudmila Pavlichenko  e Capitã Nancy Wake.  Link: http://numanoiteem68.blogspot.com.br/2011/01/3iii-esquerda-volver.html?zx=b897d903e3ce3d76
 
                                      - 03-






03/III - RECORDAÇÕES AFETIVAS


*

Toulouse Lautrec

 
A Bailarina, óleo sobre tela.



 
Brincando com os óculos numa das mãos, cobrindo o pescoço com a outra, Suzana pergunta:
- Outra xícara de café?
- Não. Tira o sono.
- Quer beber alguma coisa, uma Champangne?
- Champangne?
- Tenho na geladeira. 
- Doce demais.
- Então podemos azeitar nosso papo com um drinque. Prefere uísque, gim-tônica, cocktail, cuba libre ou vinho?
- Cachaça afrodisíaca, tem?
- Não. Não tem.
- Pena.
- Escolhe outra bebida.
- Drinque, não. Vinho? Não aprendi a gostar desse néctar dos deuses – admite Mathieu.
- Não sabe o que está perdendo. In vino veitas – observa Suzana.
O rapaz entre risos:
- Solta?
- Quem bebe revela verdades.
- Pois então...
- Então?
- Minto. Vez ou outra eu tomo um Liebfraumilch.
- Da garrafa azul?
- Sim.
- Açucaradinho?
- O próprio, um brinde à vida. O termo liebfraumilch, em alemão, quer dizer leite da mulher amada - ilustra o rapaz, sorridente.
- Prefere tomar um vinho?
- Não. Não desce bem.
- Mocinho, bebe o quê? – repete Suzana meio confusa.
- Bem...
- Pode dizer, não faça cerimônia.
- Prefiro uma cerveja.
- Ok.
- Com esse calor pega bem, desce melhor.
- Claro, Math.
- A cerveja é a prova viva de que Deus nos ama e quer nos ver felizes, professou Benjamim Franklin, fissurado na bebida.
Risos. Suzana:
- Math, pelo jeito, você deve ser bom de copo.
- Sinto que a mente nutrida por uma pequena dose de álcool acende a lucidez, garante maior flexibilidade ao pensamento e ajuda a trazer boas ideias. O corpo fica um pouquinho mais leve.
- Nossa!
- Além do mais, o álcool tempera amores e dores.
- Não pode é exagerar na dose – adianta Suzana. - Homem bêbado bate. Mulher bêbada apanha. Não é assim?
- Infelizmente. Infelizmente.
- Ok. Ok. Aguenta aí um minutinho que pego uma garrafa na geladeira.
Mathieu olha para a mulher e estende a mão para ajudá-la a se levantar.
- Quer uma ajudazinha?
- Não precisa.  Com licença, querido: um, dois, três e já! – a mulher se levanta, suspira e sai sorrindo. Lá da cozinha, grita:
- Gosta de azeitona?
- Sim.
Minutos depois ela volta equilibrando nas mãos uma bandeja com a cerveja, dois copos e uma tigela cheia de azeitonas. Abre a garrafa em silêncio.  Enche os copos, deixando um dedo de espuma na borda, como se quisesse tornar a bebida mais convidativa naquela noite quente de verão.
- Aqui está, geladérrima!
- Oba!
O rapaz suspende o copo e o esvazia de um sorvo. Suzana apanha o seu, e começa a beber também.
-Tenho na geladeira croquetes de bacalhau, fritos de tardinha. Quer?
- Pitéu dos deuses!
- Quer?
- Deliciosos, mas alimentam demais.
- E amendoins torradinhos?
- Hummmmm!
- Quer?
Risos. Mathieu:
- Por enquanto, melhor ficar só com as azeitonas como tira-gosto.
- E bastante juízo para nós – ressalta Suzana.
- Não se inquiete, juízo tenho de sobra. Baco eu referencio com sabedoria. Sei dos meus limites para qualquer bebida alcoólica.
- Legal.
- Não sou de tomar umas e outras pelos bares da vida, sou um bebedor socialmente aceitável.
- Acredito.
- Estudos mais recentes com bebedores moderados mostram que o álcool traz benefícios para o organismo e para a mente – explica o rapaz.
- De onde tirou isso?
- Ora, ora... Vivo de olho nas novidades das pesquisas científicas. Consumido sem abuso, o álcool contribui para aumentar o nível de colesterol bom no sangue e previne a formação de placas de gordura, que atravancam as artérias do corpo.
- Bem, se é assim.
- É.
- Pelo jeito, também aprecia muito azeitona.
- Combina com a cerveja. Um gole, uma mordiscada e tudo fica mais gostoso – festeja Mathieu, espetando o fruto verde, enquanto sorvia um pouco mais da bebida.
- Não sou de beber muito, fico tonta rápida – avisa Suzana. - Pior: a indisposição estomacal me estraga o dia seguinte, passo mal.
- Sei como é.
- Prefiro os petiscos.
- Cuidado, viu? O que engorda não é a cerveja, mas o que desce junto.
Risos. Suzana confirma:
- Pode ser.
- Tem dons culinários? – indaga Mathieu.
- Alguma coisa eu sei fazer. Aprecio muito a vida de casa, mas a culinária não é algo forte em mim. Metido a entender de cozinha é o Zé. Cozinheiro de mão cheia.
- Sério?!
- Gosta de macarrão?
- Claro, meu prato predileto.
- Ele prepara um spaghetti in salsa di sangue di maiale. Ao dente, claro. Daqui, ó! Para lá de saboroso..., de dar água na boca!
- Legal.
- Nada menos nada mais do que uma macarronada ao molho de chouriço com ervas finas e uvas passas. É o prato da moda que ele inventou. Outro, ganha páprica e queijo. Ambas levam qualquer cristão a uma incrível viagem de paladar, sem ter que responder pela culpa do pecado da gula.
- Devem ser boas mesmo!
- A doce amizade do salgado com o doce, ressalta o sabor da uva. Um manjar divino, óhhhh..., nota 10!!! Provoca suspiros a cada garfada – aquiesce a amiga.
- Veramente speciale?
- Prato digno de ser apreciado até pelos cardeais romano. Ou pelos sacerdotes eunucos da mitologia grega. Com um detalhe: é rapidinho de preparar. Iguaria feita na velocidade do cachorro quente.
- Maravilha. Desce com o quê?
- Preferencialmente, com um vinho tinto não muito encorpado. E, para sobremesa, ele prepara uma rabanada, enfeitada com fios de ouro do mel coado.
Mathieu morde os lábios, troçando:
- Háháhá... Homem na cozinha!
- Raro, não é?
- Sim.
- Para ele, não há nada mais humano do que cozinhar. A mesa é o lugar que resume a civilização.
- Ã-Hã! Deve ser muito engraçado ver o Zé de avental, sem a menor cerimônia, pilotando um fogão.
E depois de um risinho comprido:
- Espero o convite para uma dessas aventuras gastronômicas em sua casa, viu?
 - Deu vontade?
- Sim. Até porque comida não é só alimentar o corpo. É também uma pausa para curtir as amizades em encontros sociais. Não é mesmo?
- Ah, claro. Reunir é um prazer.
- Perfeito. Quando o casal está bem num relacionamento, tudo ao redor também irradia harmonia. E eles devem compartilhar esse momento com as pessoas e os amigos – pondera Mathieu.
Suzana recolhe um pouco o sorriso.
- É. Não vai faltar um dia para festejarmos a elogiada iguaria. Só falar com ele.
- Pois então, vamos celebrar.
- O quê? – quis saber Suzana curiosa.
- Spaghetti con salsiccia di sangue di maiale... Comida com bossa tupiniquim, viva!
- Tim-Tim!
Mathieu levanta os olhos para ela. Por um momento, fica em silêncio.
- Que foi? – pergunta Suzana.
- Observo você, seus gestos.
- Me observa?
- Você é muito suave, encanta.
- Falando assim me deixa encabulada, viu?
- Não precisa. Proponho outro brinde.
- Outro?
- A uma coisa bem especial. E com estilo.
- Com estilo?
- Ao seu look.
- Oh, não!
- Super fashion.
- Olha só!
- Não merece?
- Tudo bem. Tudo bem. Tim-Tim – clica a mulher seu copo ao do rapaz outra vez.
Mathieu, depois de um suspiro prolongado, elogia:
- Bacana seu vestido.
- Gostou?
- Não esconde nada de seus atributos femininos.
- Nossa!!! Acha minha roupa exibida e curta demais, extravagante?
- No ponto, cai bem em você. Curto e, incrivelmente, sexy.
- Vixe!
- Sou fã da minissaia, do minivestido que deixa o corpo da mulher mais à mostra. É a voga minimalista que ronda o verão brasileiro. Temporada em que as revistas não economizam espaço com as celebridades que usam decote profundo e looks mini.
- Gosta, não é?
- Quem não gosta. Essa moda está aí para começar a despir o enigmático corpo da mulher. Nada melhor, mais sensual e gostoso de ver.
- Assanhado!
- Bem, roupa de pouco pano, pernas e barriga de fora, se alinha com a visão da mulher como forte objeto de desejo, concorda?
- Bobo!
- Acha?
- Da França o figurino ganhou o mundo com energia total. A onda atual é essa: a minissaia. 
Pausa. Mathieu:
- Seu vestido é o mais bonito que já vi na vida.
- Só o vestido?
- Bem, o recheio..., o recheio...
- Recheio, Math?
- Desculpe-me, o conteúdo também.
- Melhorou. Chanel, que tem obsessão pela beleza e vocação para a alegria, fala que elegância é quando o interior é tão belo quanto o exterior.
- Seu caso. Sem tirar nem por.
Risos. Suzana apanha o copo de cerveja e toma mais um pouco da bebida. Depois explica:
- Modelo tubinho. Predileto de Jacqueline.
- Kennedy?
- Sim, a própria. Ela usa a peça com óculos de lentes gigantes, colares de pérola e a inseparável bolsa Cucci, que nesse ano a grife resolveu rebatizá-la com o nome Jackie Bag. Sabia?
- Bela jogada de marketing!  A primeira-dama merece pela elegância e sobriedade de quem vem conquistando e influenciando mulheres no mundo todo.
- Jackie tem, sim, uma aura que nos estimula a copiá-la, da postura ao traje. Não há como negar – admite Suzana.
- Sinal que, como ela, você cultiva bom gosto.
- Tento.
- Beleza!
- Voltando, voltando a agulha..., não tem mais que me diga?
- Quer saber o quê?
- Além da prisão de seu conhecido, como vão as coisas fora isso?
- Ah, sim.
- Quero saber notícias da rua.
- Posso dizer que seu marido já deve ter chegado ao Nordeste.
Suzana aperta a testa, contrai o sorriso. E pergunta:
- Por que não foi com ele?
- Meu tempo é outro, querida. Viajo de mochila nas costas, grandes sonhos na cabeça, uma Nikon-F nas mãos e muita quilometragem para conhecer lugares fora de série no interior do Brasil.
- Hummmmm!
- Deixo a estrada me levar ao cenário que ela quiser, deixo acontecer porque sei que numa viagem assim, a gente volta com muito mais conhecimento que levou – revela o rapaz todo sorridente.
- Ai, que inveja!
- Gosto de fotografar tudo o que pinta na minha frente. Não sou um Sebastião Salgado, mas clico tudo como se quisesse escrever boas histórias com minha câmara fotográfica, ciente de que o que mais vale numa foto é a vida que pulsa na imagem. Entende?
- Bacana.
Pausa. Mathieu entusiasmado:
- Posso dizer que o mais legal de viajar assim é o intercâmbio. Permite conhecer novas pessoas, o que nos dá oportunidade de passar coisas boas da sua cultura adiante. Muito dos ensaios que publico vieram de conversas que tive com amigos nessas andanças.
- Alma cigana?
- Talvez. A mim não apenas o cenário natural interessa, mas a vida que nele se manifesta.
- Claro.
- Oportunidade de contemplar a cultura local, de comer a comida típica, de ir a lugares que só quem mora no espaço conhece, de bater papo com o pessoal do lugar para ouvir histórias de alguém bom de prosa.
Suzana balança a cabeça, concordando. Depois de uma longa tragada no cigarro, pergunta curiosa:
- Viaja sempre?
- Quando posso eu ando por aí mineirando, principalmente, pelo interior mineiro com sua natureza exuberante. Passei por lugares admiráveis, como também vivi histórias incríveis em cidades que ainda conservam a arquitetura e o ritmo de vida do Brasil colonial.
- Legal.
- É o que chamo sossego criativo. O que é muito bom para eliminar o estresse e produzir bons textos. Pode crer, é fascinante e surpreendente.
Suzana retrai-se na poltrona.
- Como urbanoide assumida, nas minhas férias, prefiro viajar para o litoral e passar uns dias num lugar com uma bela vista para o mar. Conforta-me bem mais.
- Qual é sua praia?
Ela sorri.
- Qualquer uma em que possa ficar no ‘bem bom’ do à-toa, deitada numa rede de pernas para o ar. Depois, sair pela areia catando conchinhas com meu filho, pular na água, sorrir e emocionar com a beleza do mar. Ai, que delícia!
- Bacana!
- Férias devem ser assim mesmo: beleza pura. Nada a fazer e, quando fizer…, nada muito sério.
- Que folga, hein?
- Ninguém é de ferro.
- Claro.
- Mas, não é só isso, claro. Atrai-me a alegria de uma praia, vendo a satisfação de gente bronzeada que sorri com os lábios e a mente ao mesmo tempo – revela Suzana com ar divertido.
- Realmente.
- Renovo e volto com a cabeça cheia de ideias para aplicar em sala de aula.
- Ótimo.
- Me fala, existe coisa melhor em tempos de férias?
- Não, não tem.
- A felicidade é tanta que passo boa temporada marcada pelo barulhinho do mar nos ouvidos, como sinônimo de descontração.
- Maravilha!
Pausa. Suzana:
- Math, então me conta. Viaja de ônibus, de trem ou naquela tradição de pedir carona acenando o polegar, tipo hippie?
- Quando vivia numa pindaíba danada, na ‘lona’, eu viajava com a condução que pintasse na área, naquela ‘maré’ que cada um se desloca como pode. Agora, pego estrada no meu fusquinha ‘pé de boi’.
- Olha! Meu pai tem um Fuscão.
- Muito chique.
- Qual a cor do seu carro, Math?
- Azul lavado. Versão proletária, tão simples que não possui nenhum item cromado. Mas é uma ‘ximbica’ cheia de atitudes, tanto no asfalto como na estrada de terra. Mas, um dia, aspiro ter meu Karmann Ghia bem incrementado, da ‘onda’.
- Metido! Carro de grã-fino!
- Ora, Suzana, quem nunca sonhou em ter uma dessas maravilhas do mundo moderno?
- Gera fascínio nas pessoas, não é mesmo?
- Claro.
- O meu é um Corcel – admite a mulher.
- Cor de mel?
- Azul também. Adoro o meu carrinho!
- Carrão!
Risos. Suzana, cruzando o olhar com ele.
- E as garotas? Já pintou alguém que deixou marcas nessas aventuras?
- Ah, sim.
- Alguma especial?
- Uma viagem só fica perfeita se cultivamos uma boa história de amor, não?
- Não sei, é?
- Casos que nem sempre se prolongam, mas costumam ser inesquecíveis, inspirando poemas breves. Alguns sobem a serra sem parar na pista, outros morrem na praia mesmo, duram somente o tempo da viagem.
A mulher inclina-se para o amigo e pergunta, como os olhos semicerrados:
- Me conta, o galãzinho, pelo que vejo coleciona dezenas de aventuras amorosas nessas aventuras pelo mundo?
- Algumas.
- Então, deve ter muita história para contar
- Tenho. Quer que lhe conte uma dessas aventuras?
- Ã-Hã.
Suzana, abrindo mais ainda o sorriso:
- Falando assim, me lembrei de um poema de Álvaro de Campos, cria de Pessoa, poetando sobre a arte de viajar.
- Recita aí.
- Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir/Sentir tudo de todas as maneiras/ Sentir tudo excessivamente/Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas.
- Bravo! – aplaude Mathieu, elogiando o tom macio de voz da amiga.
Suzana agradece, enquanto punha um pouco de ordem nos cabelos. Em seguida, com ar de brincadeira, brinca:
- Uau! Na próxima, quem sabe você me leva de carona?
- Até que não seria uma má ideia.
- Ai, eu quero!
- Pois então...
- Só nos dois na estrada?
- Bem, não ousaria – sacode a fronte o rapaz. - Com o Zé, claro.
- Iiiiiiii!
- O Júnior também. Seria bem divertido, posso apostar.
- Vou pensar – articula a moça, revirando os olhos.
- Só marcar que a gente vai fazer acontecer. O Brasil é grande, o mundo mais ainda.
Suzana se faz de desentendida. Desvia o assunto, perguntando:
- Se pudesse escolher ser uma ave que ave gostaria de ser?
- Andorinha. As andorinhas são migratórias, voam longas distâncias em bando. O importante é que, quando vão construir seus ninhos, cada macho, cada fêmea procura um novo par para construir a família da temporada.
- Oooooh!
- Sério.
- Romanticamente modernas?
- Como são aves que se acasalam somente para reproduzir, a viagem em grupo aumenta as chances de encontrar parceiros bons nessa arte.
- Hummm!
- As fêmeas da espécie são determinadas, palavras dos biólogos.
- Parabéns, andorinha faceira. Parabéns.
Mathieu pega o copo de cerveja e bebe em pequenos goles, inflamando as bochechas. Em seguida, levanta-se do sofá e dá um beijo na testa da amiga. Ela sorri. Em silêncio, Suzana devolve-lhe o beijo numa das faces com um pouco de malícia e muita festividade.


 


* FBN© - 2012 – Recordações Afetivas..., NUMA NOITE EM 68 - Categoria: Romance de Geração - Autor: Welington Almeida Pinto. Iustr.: ‘Bailarina’ óleo sobre tela de Toulouse Lautrec -  Link: http://numanoiteem68.blogspot.com.br/2011/01/4iv-recordacoes-afetivas.html?zx=137a1b4284971b05


 


 

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